A lei do $$$!

Yôga e $$$
Enquanto pelas lusófonias (ou seria lusofobias!?) continuamos submergidos na nossa pequenez, feita de idealismos utópicos, sentimentos de culpa e complexos de inferioridade, nos E.U.A, como sempre, estão a construir os padrões culturais que nos vão reger nos próximos tempos! Por aqui dizemos mal uns dos outros, damos tiros nos próprios pés, e tentamos deitar abaixo aqueles que fazem e constroem de facto algo. Se alguém se move e faz é criticado, perseguido, difamado etc.

Movimentos políticos, institucionais, e, em geral, organizacionais de qualquer tipo, são demonizados e combatidos em discursos que misturam preconceitos contra o dinheiro, medos de poderes alheios, idealismos de espontaneidade e autonomias individuais, etc. Nos E.U.A. onde tendem a ser mais práticos e concretizadores, estão a surgir cada vez mais coisas tipo: Yôga Works.

Não é a única nem a primeira cadeia de escolas em rápido crescimento nas terras do tio Sam…

Dois empresários praticantes de Yôga resolveram investir neste negócio que é cada vez mais de milhões! Perceberam que muitas (nos E.U.A são mesmo muitas!) escolas eram mal geridas por professores muito idealistas, com muito amor e dedicação ao Yôga, mas com pouca competência e capacidade na área da gestão. Professores desgastados de muito trabalho, pouco tempo para o Yôga e ainda menos dinheiro. E eles começaram a comprar essas escolas e a pô-las a render. Nem sequer é um franschising! Simplesmente vão comprando escolas e sob a designação de Yôga Works melhoram as condições, contratam empregados (leia-se professores de Yôga), tudo com acompanhamento profissional de advogados e outros burocratas que previnem e solucionam toda a parte legal, burócratica, económico-finaceira, contabilística ou de obras, por exemplo. Não têm (ainda) um marketing nem sistema de ensino muito uniformizado, mas alinham pelo mais básico, descomplicado e comercial, a que chamaria "Yôga prêt-á-porter"" ou "fast-Yôga": ásana, relaxamento, yoga para gravidas e crianças, e "saúde natural". Aproveitam as vantagens de um trabalho de rede e de maiores dimensões, e se o negócio não se rentabiliza rápido não hesitam em fechá-lo. Fazer camapanhas de preços baixos durante meses para desestabilizar e absorver o mercado também é viável e practicado. Estão a tentar introduzir o Yôga no plano nacional de saúde com cobertura financeira do estado. Paralelamente já exploram o negócio dos produtos “naturais” e estão a começar o da produção de têxteis e outras utilidades…negócios em grande! Negócios que visam única e exclusivamente o lucro e que já estão a chegar aqui à Europa e outras Américas. E isto é só o começo. Faz-me lembrar um antigo alerta do meu mestre:" Eu já estou velho e não tenho o que me preocupar, mas vocês, os novos, se não se organizam e tornam mais competentes e capazes ainda vão ver os estado-unidenses a chegar aqui, passar o cheque e comprar o mercado...".

Não tenho nada contra os outros serem (mais) competentes. Até servem de estímulo à evolução. Mas temo que esta massificação construída por leigos, com objectivo primeiro (e único) de lucro se vai expandir cada vez mais, ganhar cada vez mais espaço e importância num mundo do Yôga onde empresas tipo Nike e outras já ganham mais dinheiro (com o Yôga) que todos os professores de Yôga do mundo juntos! Questões éticas e filosóficas não ditam nada nesse contexto. E o Yôga como filosofia está a enterrar-se um pouco mais…

Prefiro um trabalho com Yôga mais virado para a filosofia, ou pelo menos que seja esse o móbil primeiro e último da actividade. Gostava que o mundo do Yôga tivesse (voltasse a ter) como intervenientes principais os Yôgins, os filósofos…mas tenho cada vez menos esperança.

E para aqueles lusófonos que preferem gastar o seu tempo e energia a maldizer o trabalho daqueles outros lusófonos que até os defendem, esses que vivem invejando os tostões dos outros e que preferem sonhar com paraísos idílicos de autonomias individuais, etc, tenho um triste prognóstico: 51% deixarão oYôga falidos, cansados e desiludidos dos seus próprios preconceitos e ideais. Farão fora do Yôga tudo aquilo qu eeram contra dentro. E convictos; 10% venderão as suas escolas a uma dessas novas cadeias de Yoga “pret-à-portê”; 37% trabalharam como empregados numa delas, muitos desses absolutamente convertidos ás suas benesses; 1% será um bem sucedido empresário e terá a sua escola de sucesso onde reina e se deleita com o seu ego inflado (com grande probabilidade de ser um “guru” e a sua seita cheia de seguidores); 1% terá a sua própria escola autónoma, minúscula e quase invisível, onde se mata a trabalhar para não falir e cujo trabalho terá pouca expressão no mundo de milhões do Yôga. Em qual das percentagens me inserirei eu?

1 comment:

Carlos said...

Lamento concordar com o teu prognostico. Mas a verdade é que não é exclusivo do yoga a tendencia para a globalização. Na minha profissão actual isto verifica-se praticamente da mesma forma, e pelo que vejo noutras profissoes estabelecidas ( como por exemplo o direito ) também se passa assim, com as devidas ressalvas e especificidades.
Por isso o importante é que independentemente daquilo que se faz, o que interessa é que nos realizemos fazendo-o. E creio que nisso, tanto tu como eu, amigo Tó, estamos bem servidos, muito melhor do que milhões. Congratulemo -nos por isso um momento e depois... de volta ao trabalho. Grande abraço.
E já agora acrescento que tenho seguido atentamente o trabalho dos americanos ( através do yoga journal e devo confessar que gosto desse trabalho ), apesar da massificação, concessões á modernidade e etc. A minha verdade é que a adaptação aos tempos modernos, e aos habitos comuns da civilização actual, de uma filosofia milenar não a descaracteriza, antes perpetua a tradição dos yogins como cientistas da sua propria consciencia e experiencia. E francamente é uma forma de encarar o yoga que potencialmente provoca menos alienação da experiencia do comum dos mortias, ou seja os 99 por cento que nunca ouviram nem ouvirao falar do yoga, muito menos das tecnicas, regimes alimentares, exigencias etc.
E antes isso do que nada, creio. Mas o que percebo eu disto, agora que já nem pratico ( conscientemente ). A continuar...