Uma breve história do ásana


Ásana: um breve historial

O ásana foi, provavelmente, um dos primeiros aspectos do yôga a despontar, pois é extremamente espontâneo e com o corpo é fácil atrair e concentrar, unir, a atenção em um determinado ponto, conquistando a estabilidade da consciência.

Desde logo a posição sentada é a posição natural para que o Homem se possa relaxar e estabilizar (sem tender a dormir) podendo então concentrar-se e deixar-se meditar acerca do sentido da Vida e demais questões filosóficas e não filosóficas. E tal como é uma posição que naturalmente tende a provocar um estado que permite a estabilidade, a concentração e a meditação, também é a posição que se deve procurar se queremos provocar voluntariamente a meditação através das técnicas de concentração. Assim, a descoberta do ásana, a posição assentada, estável e confortável, como posição óptima de concentração e meditação, deve ter sido um acontecimento absolutamente natural, a constatação do óbvio. E o refinamento que construiu uma série de sub-posições sentadas para meditar foi somente uma questão de tempo, com vários yôgins sentando-se, adaptando a posição conforme o seu corpo, experimentando. Assim como o terá sido a descoberta de outras posições que facilitam a posterior tomada das ditas posições pretendidas, as de meditação, as sentadas. E assim se desenvolveram todas as milhares de
técnicas que hoje chamamos de ásanas: posições físicas firmes e agradáveis, que se podem manter estáveis para meditar e que também desenvolvem força, flexibilidade e a própria consciência do corpo e através do corpo.

Além disso, o ásana é um dos aspectos mais básicos e necessários a ter atenção por quem deseja practicar yôga, já que sem uma posição física firme e estável é muito mais difícil practicar corretamente as demais técnicas (mantras; pranáyámás, concentração, etc.). Assim, á medida que as técnicas do yôga se iam desenvolvendo mais se tornava necessário voltar às bases, criar uma posição de meditação estável, ou seja, criar um ásana, um dhyanásana. E isso consegue-se também com a practica de ásana.

No tempo clássico, o tempo Patanjali e seus Yôga-sutras, quando o yôga era de tendência brahmácharya, repressora, de renuncia, ascética, colocou-se a ênfase no tapas, e o tapas pode e tende exercer-se no corpo. E em alguns momentos o Yôga confundiu-se com essas mesmas practicas ascéticas, de sacrifício e até mortificação, técnicas que produzem calor, que activam a energia interna do Homem através do esforço sobre si mesmo, ou seja o tapas. Também essa ascese corporal se tende a exercer através da imobilização total e prolongada de todo o corpo, ou pelo menos de partes dele. E por essa via também se terão descoberto alguns dos efeitos da permanência estável numa posição imóvel.

De qualquer forma, a posição estável de meditação (o ásana) já era uma possibilidade e necessidade conhecida antes, desde os tempos Védico e pré-clássicos, e foi tomada não só por Patanjali na sua codificação do yôga (os Yôga–sutras), mas também pelos Brahmanes, Budistas, Jainaistas, etc.. Na índia e em geral no extremo oriente sentar-se no solo não era sinal de pobreza e sim um habito cultural absolutamente comum, que se verificava até entre as elites, no palácios etc,. Só com a revolução industrial pós-colonial, já em pleno século XX é que esse habito começou a perder terreno à medida que os indianos adoptam cada vez mais os costumes e jeitos importados do ocidente.

Não se sabe com precisão o momento histórico em que começou a practica da técnica de ásana, ou em que momento essa practica ganhou esse nome. Mas com certeza que os ásanas básicos de meditação já são muito antigos, provavelmente tão antigos como o próprio Yôga e as practicas de meditação em geral. Ou seja, terão 5000 anos ou mais*

*a referência a 5000 ou mais, tão comum acerca da história do yôga, deve-se ao facto de 5000 anos ser o marco que constitui a história, a data a partir da qual existem registros escritos sobre as antigas civilizações. Sabe-se que já existia yôga por esse tempo, um yôga primitivo que nem usaria o nome com que hoje o reconhecemos, mas a partir daí tudo são conjecturas, teorias arqueológicas, antropológicas e históricas. Pelo que afirmar que o yôga tem 8000, 10000 ou 15000 anos, como por vezes se vê publicado, embora seja uma possibilidade real, também não é mais que uma teoria vaga e pouco sólida, sem possibilidades de ser minimamente comprovado.

Nas escavações feitas nas cidades que constituíram a agora chamada “Civilização do vale do Indo”, c encontraram-se “selos” com várias figuras que parecem identificar-se com formas precoces de divindades hindus, nomeadamente Shiva. Em um dos selos mais famosos parece estar uma figura humana que alguns identificam como sendo um yôgi sentado em posição de meditação (samanásana-siddhásana). Isso faz-nos crer que já nessa época pré-classica (4000 a 2000 a.c.), ainda antes do desenvolvimento do Vedismo, já existiam Yôgis e eles já adoptavam esse tipo de posição, os ásanas de meditação.

A importância do ásana como uma practica tantrika que engloba tudo

Foi muito mais tarde, quando o Tantrismo medieval dos séculos VI d. c. em diante, reavivou e retomou a cultura animista muito mais antiga, pré-clássica, que o ásana se tornou um elemento mais presente, valioso e até central da practica do Yôga. Com o valorizar da terra, da mulher, do corpo, do sensorial, a cultura tantrika naturalmente deixou de encarar o corpo apenas como um obstáculo a superar através da imobilização, passando a ser um aspecto da consciência, tão bom como qualquer outro, através do qual o yôgin tantriko se pode conhecer, auto-superar, transformar e transcender-se. Assim se passaram a valorizar os ásanas como técnicas que permitem descobrir a realidade no próprio corpo, que em si mesmo já é um aspecto do Todo e o contém representado. “Tudo o que está aqui está em todo lado, o que não está aqui não está me lado algum” diz um dos mais sonantes sutras Tantrikos. O microcosmos que corresponde ao macrocosmos. No corpo se reconhecem e gerem os aspectos emocionais e mentais, e desde logo toda a fisiologia sutil, tão típica do Tantrismo, que tem como alguns dos seus conceitos nucleares a shákti, a força, poder, energia, o prána, a Kundaliní, representados por chakras, nadís e outros símbolos e conceitos. Todos estes aspectos da consciência humana não são apenas físicos, e podem ser conhecidos e manipulados através de outras técnicas não ojectivamente corporais, tais como os mantras, a mentalização, vizualização e concentração, assim como a realização de rituais variados, dos quais o mais famoso é a união sexual ritual, que une os opostos através da união física, sexual, emocional e mental entre um homem e uma mulher (representando polaridades distintas). Mas os ásanas (em conjunto com os pranáyámas e ajudados pelos Kriyás) também são um caminho possível para alcançar, mover e canalizar a “força”, a vontade, a shaktí, o Poder do Homem. Assim, toma destaque o Hatha Yôga, o yôga da força, que deixa de ser apenas a metade inferior e preparatória do Rája Yôga de Patanjali, para passar a ser em si mesmo uma forma de yôga, onde a concentração, meditação e samádhi não são angas posteriores e autônomos, mas sim estão contidos directamente na practica de ásana e pranáyáma, que passa a ser uma via directa para a “iluminação”.

Também nessa altura, e como resultado objectivo da practica de Hatha Yôga e suas variantes, e nomeadamente como consequência da practica de ásana, ao verificar que essas practicas não apenas constituíam vias filosófico-espirituais mas que também tinham repercussões positivas na saúde humana, o Yôga passou a acumular pretensões terapêuticas, passando as suas practicas mais corpóreas a ser aplicadas como forma de recuperação da saúde no contexto da medicina tradicional hindu, o Ayurvêda*

*Hoje os ocidentais confundem tudo, misturando Yôga que tem fins filosófico, com o Ayurvêda que tem pretensões terapêuticas. O Ayurvêda e o Yôga podem complementar-se, cada um com a sua metodologia, função e plano de actuação, mas não devem confundir-se e misturar-se como se fosse tudo a mesma coisa, da mesma forma que a medicina ocidental e a educação fisica /desporto não se confundem muito embora tenham alguns pontos de contacto e comuns.

Assim, o ásana em conjunto com as técnicas de pranáyámá e de purificação do Yôga (Kriyás – actividades purificadoras) que se juntam aos ásanas pois ajudam á sua execução e desenvolvimento, ganham uma nova faceta até então desconhecida, a promoção da saúde. Isso foi especialmente útil pois dotava as castas e famílias onde o Tantra medieval se desenvolveu de auto-suficiencia e destaque a nível de saúde, vitalidade e bem estar e ainda lhes permitiu ter um motivo plausível para exercer as suas practicas tantrikas quanto o Tantrismo medieval foi perseguido e reprimido pelos Brahmanes em nome da moral e ética tradicional do vedismo clássico (de tendência brahmacharya – patriarcal e repressor, ou seja, o contrário de tantriko), entretanto reavivado pelo grande Shankaracharya baixo os conceitos essencilamente monistas da filosofia Advaita Vêdanta. Assim, não só não acabaram com o Tantrismo (apenas o reprimiram, limitaram e de certa forma marginalizaram), como a sociedade em geral, e os brahmanes e yôgis em particular, ainda passaram a dispor de uma serie renovada de conceitos e practicas que incorporaram aos hábitos e practicas culturais e filosóficas a partir de então, e que se podem ver hoje no Yôga, no Tantra e no Ayurvêda, constituindo verdadeiras técnologias da consciência e que aparecem sob o nome de ásanas, kriyás, pranayámas e mantras, yantras, etc., e que persistem na cultura em geral através dos conceitos de prána, chakras y Kundaliní, entre outros, assim como nos movimentos devocionais dirigidos à shaktí (shaktismo) e a Shiva (Shivaismo).

O ásana na modernidade

Apesar da extraordinária valorização e desenvolvimento da practica de ásanas desde tempos muito antigos e desde logo desde o advento do tantrismo medieval, quando chegamos ao século XIX e inícios do século XX a practica de ásanas era marginal. Estava em plena decadência. Aliás, toda a cultura hindu e com ela o Yôga, estava em plena decadência após muitos séculos em que houve o advento e expansão da cultura muçulmana e depois também a chegada de potencias dominantes da Europa, nomeadamente os portugueses, franceses, holandeses e sobretudo os Ingleses que consolidaram o seu predomínio no território hoje chamado Índia a partir de meados do século XVIII e até metade do século XX.

Embora nunca se tenha extinguido, a practica de ásanas estava tão pouco valorizada que no inicio do século vinte era quase invisível. Desde logo havia poucos mestres de Yôga que se dedicavam em essa vertente considerada menos nobre, limitada e meramente utilitária do Yôga. O texto central do Yôga (Yôga-Sutras) referia e conceitualizava a practica de ásana, mas pouco passava disso mesmo, uma referencia à necessidade de assentar o corpo de forma estável para então proceder à practica de yôga, nomeadamente da meditação. Havia também alguns outros textos medievais e posteriores (Hatha Yôga Pradipika, Ghêrandha Sámhita, e outros menos conhecidos) que referiam a practica de ásanas. Mas esses tratados eram desconhecidos para a esmagadora maioria dos Hindus e até de grande parte dos poucos mestres de Yôga que ainda existiam, já que não estavam traduzidos do sânscrito e outros dialetos nos quais foram registrados a escrito, e por esta altura o conhecimento do sânscrito era ainda mais residual que em tempos anteriores, interessando apenas a um numero reduzidíssimo de eruditos brahmanes (sacerdotes) pois era sua função conhecer os textos que continham a sabedoria védica e maneira de utilizá-la socialmente nos rituais e cerimônias religiosas. Some-se a tudo isto a pobreza muitas vezes extrema em que viviam a maioria dos indianos hindus nesses últimos séculos coloniais, pelo que dedicar-se ao Yôga e nomeadamente ás suas practicas físicas era ou uma fuga do mundo, ou um luxo que poucos podiam tomar, já que era absolutamente necessário trabalhar para fazer subsistir as suas famílias. As próprias leis, tanto dos britânicos como dos rájas (reis) e gurus (mestres, muitos deles os sacerdotes hindus, os brahmanes) que durante algum tempo os ajudaram a controlar a população, desaconselhavam dedicar-se a outras actividades que não o trabalho que os próprios gurus, rájas e britânicos controlavam e exploravam. Num contexto de pobreza extrema nunca se exalta a dedicação ao corpo, à sensorialidade e sexualidade que isso desperta, não só porque o contexto desvia daí a atenção como porque por aí se tendem a gerar movimentos libertários...

A decadência das practicas de yôga em geral e de ásana em particular foram de tal modo que ao revitalizar-se essa practica em inícios do século XX os hindus já o fizeram à sua maneira tão típica: incorporando conceitos estrangeiros, nomeadamente da ginástica ocidental, passando a realizar-se ásanas com movimento e repetições, ao estilo da ginástica britânica com a qual os seus exércitos se mantinham “em forma”. Apesar dos movimentos nacionalistas hindus que começaram ainda no século XIX e se repercutiram na soberania adquirida no século XX, e que reclamavam a soberania política e também o respeito e revitalização das tradições hindus, o Yôga só voltou a ganhar importância e reconhecimento, inclusive na própria Índia e aos olhos dos indianos hindus, quando os ocidentais se interessaram por ele. Primeiro traduzindo alguns dos antigos textos em sânscrito para Inglês e para Hindi (máxime o Bhagavad Guitá). Depois resolvendo provar algumas das variadas filosofias Hindus que entretanto tinham estudado, adoptando e practicando essas respectivas vias espirituais, nomeadamente o Yôga e o Tantra. Primeiro importou-se o Yôga por entre outros fragmentos da cultura hindu, Budista e de outros orientes, como uma espiritualidade alternativa que deveria colmatar o vazio espiritual ocasionado pela derrocada do cristianismo e desilusão com “A ciência” que não só não colmatou o vazio como ainda aumentou os temores ao prover material tecnológico bélico para as duas grandes guerras mundiais, nomeadamente a bomba atómica, colocando o Homem perante o drama fundamental da sua própria extinção como espécie. Tal como na Índia medieval, também no ocidente o Yôga enquanto practica física também foi mais fácil de compreender e aceitar quando abordado de um ponto de vista terapêutico e utilitário. E foi já em pleno século vinte que o ásana foi reabilitado, com alguma deturpação pois foi misturado e practicado com educação física (tanto na Índia como no ocidente, assumindo o papel de fitness oriental exótico) e/ou como ginástica terápêutica. Foi reabilitado na Índia por uns poucos professores oriundos de umas poucas escolas e importado massivamente para o ocidente, tanto pelas mãos de indianos hindus como de ocidentais que deles aprenderam e rapidamente disseminaram por academias, ginásios, associações recreativas e culturias, ashrams e outro tipo de escolas de yôga, e nas últimas décadas até por entre empresas e afins, clubes nocturnos, programas televisivos, etc. Tudo se acelerou na década de 80 quando a recessão e ressaca de década de 60, que popularizou o Yôga pela primeira, fez passar o idealismo hippie ao pragmatismo yuppie e impôs a necessidade de evidenciar o utilitário sobre o espiritual, e nada mais visivelmente utilitário que o ásana. Isso só preparou caminho á explosão da moda que eclodiu já na década de noventa em diante e que leva a que hoje o yôga no ocidente seja confundido pela maioria das pessoas leigas e semi-leigas com ásana, e este com uma practica física de fitness e ou terapêutica, quando não mesmo de desporto de competição! Os pioneiros que primeiros se destacaram nessas practicas de ásana são confundidos com artistas contorcionistas e admirados por essas suas capacidades. Na sua grande maioria ainda estão vivos (têm entre 50 e 100 anos) e alguns deles são autenticas pop stars.

Hoje: o ásana na sua plenitude ou...à beira de extinção?

Não deixa de ser interessante constatar como uma practica que era irrisória há apenas 100 anos atrás se tornou uma moda frenética global practicada por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo! Hoje há mais pessoas a practicar yôga, e principalmente ásana, do que em qualquer outro periodo da história. O ásana tem hoje em dia uma preponderância no yôga que nunca antes tinha tido, ao ponto de muitas pessoas identificarem as duas coisas, resumindo o yôga a ásana! Há eximios praticantes e professores em todo lado do mundo. Mas ainda será Yôga o que se faz em 90% dos casos que por aí se anunciam? Será ásana? Ou será meramente ginástica? Ginástica de fitness ou terapia com muita pretensão, cheiro exótico e fama de milagreiro?!

Parece que após a loucura das últimas 4 décadas (desde os anos 60 ao novo milénio, e em especial desde a década dos 90) que fez o yôga, e nomeadamente o ásana, registar-se no património cultural global, a percepção sobre estas practicas pode estar de novo a mudar. Algumas nuvens passam servindo de alerta para os efeitos negativos de tanta massificação. Nomeadamente os programas de TV “Yôga Inc.” e o artigo da Time “When Yoga urts”, parecem apontar para uma visão mais madura, menos optimista e voluntarista desta practica milenária. Ou seria milionária?

É que por outro lado o Yôga é hoje um negócio que move milhões e que tem muitos interesses instalados e uma serie deles ainda maiores a querer instalar-se. Em alguns países há uma série de instituições reguladoras de profissões, nomeadamente profissionais da Educação física e de sectores terapêuticos que tentam controlar o Yôga em geral e o seu aspecto físico em particular, de modo a poder abocanhar o negócio de muitos milhões de euros que se gera anualmente em torno a actividades que se anunciam como yôga. Nos EUA há inclusivamente o esforço de alguns empresários do Yôga no sentido de o integrar no sistema nacional de saúde, ou pelo menos integrá-lo na categoria de subsidiável, de forma a aceder a subsídios e deduções fiscais de somas avultadas. Grandes marcas têxteis do sportsware, como Addidas ou Nike, já obtêm mais lucros com as suas linhas têxteis para Yôga que todos os professores de yôga juntos! Já para não falar da inclusão do yôga como exercício virtual, orientado através de uma consola de jogos! Onde ficam os propósitos e ideais filosóficos no meio deste negócio de biliões?

Enfim, se o futuro de alguma coisa chamada Yôga parece assegurado, qual é exactamente esse futuro já é mais difícil de prever. Os mais pessimistas advertem que o yôga como via filosófica pode acabar em apenas uma geração!

Uma novela a seguir nos próximos séculos...

2 comments:

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Anonymous said...

Excelente, continua.