Meditação
Bloqueios metais, meditação…O meu mestre, DeRose, é a pessoa que já conheci que melhor consegue explicar, de forma mais simples e acessível, o Yôga. Nomeadamente os processos mentais. Nomeadamente os processos relevantes para a meditação. Consegue que algo profundo se torne óbvio, e daí aflorem boas percepções.
Mas ainda assim, nesta área, as coisas são bastante traiçoeiras.
A prática da meditação deveria permitir que a consciência se “solte”, se liberte dos processos mais comuns como as emocionalidades e os raciocínios, que, de certa forma, a limitam. A consciência deve fluir “livre” do interior para o exterior, em jorros de intuição, simultaneamente criativa e reveladora. Criativa e reveladora sobre qualquer coisa, e mais especificamente sobre filosofia, que é o que mais interessa aos Yôgis.
Assim, o praticante vai…praticar! E algo tão simples, de repente parece tornar-se tão difícil e frustrante! Chega a parecer impossível!
A maioria dos praticantes (mesmo que lhes digam explicitamente o oposto) está auto-condicionado a imaginar que na meditação algo de especial e diferente vai acontecer. Espera “sensações”. Espera “Luz”, ou luzes…Espera algo incomum e até estranho! Místico! E só aceita isso. Bloqueia-se a si mesmo qualquer possibilidade de ter meditado, se não “sentir” ou se não tiver “visto” coisas… Algo que seja do tipo de uma viagem a vidas passadas, ou pelo menos à barriga da mãe, uma adivinhação qualquer, ou uma sensação especial de “harmonia e paz”. Algo mágico.…E ainda há os que estão fixados na ideia de uma contemplação estática e mística, uma espécie de paralisia cerebral que revelaria verdade e a felicidade!
E o pior é que como não queremos (os instrutores) ser doutrinadores, nem sequer podemos dizer que as “visões” estão certas, erradas, ou seja lá o que for. Cada um tem a sua experiência, e deve ser respeitada, até porque se entramos pelo caminho de julgar os estados de consciência alheia…onde foi parar a suposta liberação da consciência? Aliás, se dizemos a alguém que a meditação é a “comum” intuição, e que não é para alucinar e sim dar-nos a mais pura (normal, simples e crua) realidade, provavelmente o “misticozinho” simplesmente conclui que não sabemos do que estamos a falar e vai a procura de um homem mais velho (de preferência Hindu, ou pelo menos com aspecto estranho), que naturalmente já tem bom senso e cala-se, deixando o alucinado regozijar-se nas suas alucinações! Ou então conclui que somos pretensiosos, pois a meditação é algo realmente muito difícil, só alcançado por “grandes mestre” depois de uma vida (ou mais!!!) de praticas místicas muito adiantadas! Enfim.
Os praticantes costumam bloquear-se com a técnica e a concentração, que são só os meios, e alucinam com os seus desejos inconscientes.
No meu caso pessoal demorei 3 anos a desbloquear-me dos esquemas sobre a meditação que tinha aprendido dos ensinamentos do meu mestre. Durante 3 anos de pratica senti-me frustrado, porque em vez de deixar-me meditar, tentei forçar-me a encaixar nos esquemas mentais que tinha aprendido. Só quando meditei sobre a própria meditação a minha mente se desbloqueou e as coisas começaram a ter sentido. Até os ensinamentos nos quais eu próprio me bloquei! Realmente disse a mim mesmo: “tão simples”. Tudo aquilo que tinha aprendido estava certo. Só que durante algum tempo não serviu para me “libertar” e sim para me aprisionar! Entretanto reparei no óbvio, que sempre me tinha dito o mestre: toda a gente tem intuições. Eu já as tinha antes. E com o Yôga, naturalmente, elas aumentaram. A prática simplesmente contribui para estimular esse aspecto e capacidade da própria consciência. O que ainda não consigo é ter o controlo mental suficientemente desenvolvido e disciplinado para entrar voluntariamente em meditação, sempre que quero, e conseguindo que intuição seja sempre “filosófica”. Nem sei se isso é realmente possível e vale o esforço. Mas também não vale a pena obcecar-me. Se não bloqueio, mais uma vez.
Hoje, para mim, a meditação é aquilo que sempre foi, e nunca deveria ter deixado de ser: um estar comigo mesmo, em observação da minha própria consciência, desfrutando do que ela tem para me dar. Não é preciso forçar a mente a "saturar-se", basta deixá-la descansar em algum objecto, e a partir daí, deixa-la fluir. E no processo, reconhecer o que há de realmente interessante, se é que há alguma coisa! Com a pratica começa a ficar mais nítido o que é o quê: intuições, desejos inconscientes, imaginação, emoções, raciocínios...
E o tal de samádhi, nada mais é que uma meditação. Uma meditação que revela o: quem sou eu; de onde venho; o que faço aqui…o auto-conhecimento!
É engraçado que estes bloqueios e alucinações não são só em relação à meditação propriamente dita, mas em relação ao Yôga como um conjunto.