Egomaniacos da transcendência
Uma reflexão sobre o Yôga e os Yôgins, e a vida social.
(Este autor desde já esclarece que o tom irónico e até jocoso de algumas partes em nada pretende retirar o valor ao Yôga ou aos Yôgins. Afinal, sou um deles! A brincar se dizem coisas sérias. E o que seria se não conseguirmos rir de nós mesmos! Não se melindre.)
A transcendência
Yôga é uma filosofia de vida pratica (técnica) que visa levar ao … Yôga!
Yôga é um estado de consciência de…Yôga!
Yôga é União. União no sentido de integração. Integração no todo. Com tudo e todos, com todos os aspectos da natureza, união de todos os aspectos da consciência, numa Unidade, sem princípios nem fins. Integração numa realidade que simplesmente…é!
Pois. Simplesmente é! É. E daí?
Continuando…
No estado de consciência de Yôga o ego dissolve-se na Unidade. A personalidade deixa de fazer sentido como algo separado e diferente de tudo o resto. Não mais há o eu, o ego, separado e isolado. As identidades dissolvem-se pois integram-se numa coisa só: o ser. Ser que existe em recriação permanente, numa mudança sem principio nem fim, sem sentido para além disso memso, uma existência que “simplesmente é”!No estado de Yôga…
Que bonito! Que tentador!
Sim. Tudo isso é lindo. E real. Isso é tão real como transcendente. Tão verdadeiro como intangível.O que é tangível são os fenómenos, as mudanças, as diferenças, os nomes, as personalidades. Os egos.
O EGO
O Ego. A consciência egoísta.
A nossa real identidade (que “simplesmente é”) pode ser absolutamente "livre", mas na realidade social a liberdade é limitada e condicionada pela liberdade dos outros. Ou seja, pelo nosso PODER em relação ao dos outros.
Em sociedade, para os outros, sou o António Matos (um chato do pior!).
O ego identifica-se como algo diferente e separado, o Eu.
Aquele eu que identificamos como algo distinto, autónomo e individual. Que usa nomes próprios e tudo: António; Portugal; Toyota; orquídea; Microsoft; Benfica; etc…
Na vida em sociedade é o Ego que é reconhecido. Para os outros(egos) o que existe é o ego. E o ego é…egoísta!
É triste ser ego. Mas para o ego, ser ego é irresistível!
Ser ego é ser só parte. É ser contraditório, instável e efémero. É ser mortal. É ser inacabado, condicionado, insatisfeito e dependente. É estar isolado nos dualismos em que se desdobra. É não compreender e não ser compreendido. É procurar sempre encontrar-se mas não ter meta onde parar. E procurar sempre integrar-se e ser coerente e nunca o ser. É ansiar por aquilo que nunca é: completo, integro. É querer suplantar a sua própria condição e quando o consegue percebe que não havia nada a ser suplantado. É ser iludido. É ser a sua própria ilusão! E é isso que nós todos somos uns para os outros, em sociedade.
E os Yôgis que já transcenderam o ego?
O Yôga serve para transcender o ego. SER Yôga é ser algo além do ego. Mas o ego continua a existir!!!
Os iluminados são diferentes em quê? Como é a transcendência tangível e susceptível de ser reconhecida e valorizada?
Diria que a procura de diferenças, de utilidades e reconhecimento é um sinal óbvio de...egoísmo!
A transcendência é…transcendente! Não se concretiza.
O que existe em sociedade são egos. O ego continua a existir, sendo a sua própria ilusão. Os Yôgis transcenderam o ego, não o destruíram ou anularam, ou abandonaram. Os Yôgis continuam a TER um ego, através do qual se expressão. Mesmo que não se identifiquem como sendo isso. E é esse ego que é participante do mundo, com as suas perspectivas, limitações e objectivos. Posso ser iluminado, mas quem participa em sociedade e é reconhecido e valorizado (mesmo que negativamente) é o António Matos. Não o “simplesmente é”!
Mas então qual a relevância social da iluminação?
R:Não tem!
Repito: Transcendente é transcendente! Não é algo do mundo fenoménico.
Por isso alguns Yôgis vão para uma gruta na montanha, tornam-se eremitas e procuram que o seu ego participe o mínimo possível da Vida. Transcendem o ego e demitem-se da Vida. Fazem tudo o que é possível para fazer o mínimo possível! Para não chatear e não se chatearem (de certa forma mantém algo de egoísta). O que queriam mesmo seria simplesmente contemplar a própria existência, mas têm que aguentar também o existir!
Outros fazem algo parecido mas mantendo-se mais dentro da civilização. Afinal, tudo é natureza (Prakriti), montanha ou cidade! Para quê esperar a grande dissolução sozinho e pobre. Ao menos ainda desfrutam qualquer coisa pelo caminho.
A maioria, no entanto, faz opção diversa. A maioria opta pela via…egoísta! Há muitos que têm (ou adoptam) uma visão teleológica da evolução. A ideia de progresso. Acham que todos estamos a progredir para alguma coisa. Para uma iluminação geral, ou coisa que o valha! (o que é contraditório com o conceito de transcendência: “simplesmente é, sem principio nem fim…”) Logo o seu conhecimento iluminado é fulcral para continuar e acelerar esse processo. Por valorizar tanto o seu conhecimento querem partilhá-lo e expandi-lo, para que mais egos se libertem também. Muitos tornam-se instrutores de Yôga.
E também há muitos que não são movidos por tão nobres ideais. Simplesmente gozam do poder que os conhecimentos adquiridos sobre si e sobre o mundo lhe conferem. Aí o conhecimento transcendente acaba por servir para reforçar o próprio ego! (Tudo isto é paradoxal) O facto de já não se identificarem como sendo o ego permite que o tratem com menos medos. Afinal, não é sobre si que as consequências kármicas recaem! É fácil lançar o ego numa consolada libertinagem, soltando-o de preconceitos e limites e permitindo que ele se satisfaça em desejos e sonhos tão reais como ele próprio! (Por isso o Yôga deve ser precedido de uma estruturação ética do Yôgin).
Independentemente das boas intenções, ou falta delas, os “transcendentes” têm e usam o seu ego. Ou são usados por ele…Aliás: a própria vontade de transcender as limitações do ego costuma ser uma ambição bastante egoísta!
Enfim...
É engraçado observar como cada um lida com todos estes conceitos (União, liberdade, ego, etc.), especialmente no próprio contexto do Yôga. É muito comum neste meio ver gente contra tudo e todos, sempre prontos a disparar uma histérica acusação de ego e condicionamento em relação a qualquer afirmação que se faça. Qualquer coisa, especialmente que tenha a ver com regras e ordem social, já pode contar com alguém do contra. Sempre em nome da liberdade claro. Qual liberdade, ou de quem? Sabe-se lá…deve ser a do Yôga, a transcendente!
Outra coisa bastante interessante são os casos que anunciam a viva voz a sua libertação/iluminação: “Sou Uno; Simplesmente sou; Sou livre; Sou livre; Sou livre; …”! Pronto, ok. Está bem, está bem, já se ouviu. Não se percebe se é apenas uma necessidade incontrolável de exibir a liberdade, ou se simplesmente se estão a tentar convencer a eles mesmos! O que é certo é que ninguém gosta ouvir. Ou por inveja ou por decoro…
Assim, a pratica do Yôga deve ser feita com objectivos menos égoicos, mais humildes: tratar do corpo tornando-o excepcional, emagrecimento, terapia, bem-estar “corpo e mente”, concentração para melhor produtividade, etc. Mas… utilidades, corpo e produtividade não são coisas do ego? Não compliquemos! A prática está na moda, isso é que interessa!
Os instrutores de Yôga.
(grandes, médios e pequenos e invisíveis, não vá alguém sentir-se excluído!)
Os grandes Mestres, no fundo, são grandes egos! São pessoas em volta das quais se geram muitos fenómenos: eventos; livros; seguidores; movimentações económico-financeiras; colegas e parceiros; polémicas e inimigos; construções; conhecimentos; etc. Basta olhar para alguns nomes mais conhecidos: DeRose, Sivananda; Aurobindo; Vivekananda; e muitos outros. (sim a lista poderia incluir muitos outros, de vários tipos, linhas e tendências, mais recentes ou antigos…é uma pequena lista pessoal.). Eles são conhecidos e grandes por serem acontecimentos de maior! Outros instrutores são médios e pequenos pelo respectivo impacto no mundo. É o Karma que se contabiliza, não a transcendência! O facto de serem considerados grandes Mestres (no mundo dos egos não há unanimidades) tem a ver com reconhecimento e influência social. Não garante nem impede qualquer tipo ou grau de iluminação. A iluminação dos outros é uma questão de fé para cada um. Há grandes Mestres que são considerados iluminados por muitos e considerados charlatães por outros tantos. Outros que nunca ouvimos o nome vivem grandes Moksha! Iluminação e reconhecimento não têm causa directa.
O bom instrutor de Yôga:
Em sociedade cada um vale por aquilo que tem para dar aos restantes. O bom instrutor é o que ajuda os outros na sua própria evolução em direcção aos objectivos pretendidos. Seja através de inspiração, orientação, amor ou simplesmente fé. E como vivemos num mundo de dualidade, fazer algo é também fazer algo contra! Há sempre quem não aprecie e antagonize.
E tudo isto a propósito de quê?
Nada de especial.
Ou, talvez isto…
(Esta é a parte jocosa e ácida. Não tem grande piada mas é para rir. Não leve demasiado a sério)
Quando os caros colegas e amigos, especialmente instrutores de Yôga, quiserem mandar os seus “bitaites” acerca de algum assunto de Yôga, especialmente se tiverem intenções de fazer julgamentos sumários e moralistas, antes de dizerem umas banalidades tão bonitas quanto inconsequentes sobre sermos todos unos e livres, e não haver barreiras, bláblábláblá… pensem no seguinte: se todos e tudo são unos então não se devem importar que eu namore com as vossas namoradas, afinal somos todos um, e comer-me a mim é o mesmo que beijá-la a ela! E também não se devem importar que eu passe a escrever textos e no vosso blog, afinal não há meu nem teu, é tudo ser integrado, e é anti natural-espiritual formar barreiras artificiais! E já agora, vocês pagam-me parte da renda da casa, e eu da vossa (não têm? Não faz mal, eu compenso vestindo as vossas roupas) e cada um vai aparecendo para dormir sem ter de dar qualquer tipo de satisfações e se encaixar em qualquer ordem! Isso seria divisionário, coisa do ego, inadmissível! Com certeza são tão livres e desapegados das coisas materiais que as vossas aulas e cursos são grátis! Não faria sentido cobrar por algo de valor espiritual inestimável. Assim como a vossa alimentação, que devem estar prestes a dispensar, já que isso é de seres dependentes e mundanos! Não vamos matar outros seres só para manter o nosso ego. E já agora também deixem de dizer mal do Bush, da América e dos bodes espiatórios em geral(e de qualquer coisa aliás) pois “tudo o que está aqui está em todo o lugar, e o que não está aqui não está em lado nenhum”. Ou seja, dizer mal do Bush, por exemplo, é dizer mal de vocês mesmo, pois o Bush está dentro de vocês, e vocês estão dentro do Bush…Pegar frases feitas e dizer balelas bonitas é fácil. Mas é oco e costuma ser incoerente e hipócrita. Os jogadores e treinadores de futebol também o fazem regularmente. Dos meus colegas do Yôga espero um pouco mais.
E se nada de interessante têm para dizer então deixem que seja o silêncio a falar por vocês. O silêncio costuma ser tão eloquente! Aliás, eu próprio também devia estar mais calado.
Já chega. E sobra!


